Memórias de viagem

Brasil, Pará, 2013. Abril e maio. Setembro e outubro. Inverno e verão na Amazônia. Viagens a Belém, Icoaraci, Salvaterra, Joanes, Cachoeira do Arari, Santarem, Monte Alegre e Óbidos. Trilhas pela mata, caminhadas urbanas, viagens pelas águas. Sítios arqueológicos. Profusão de artefatos. Objetos antigos, culturas passadas. Vitrines de museu, reservas técnicas, acervos pessoais. Relatos, vivências, memórias. Para produzir um documentário, a equipe viajou por duas vezes ao Pará, voltando aos mesmos lugares. Duas situações de tempo, a transformação da paisagem. Fotografias registraram instantes, fragmentos da gradativa elaboração de uma narrativa audiovisual e imagética, a partir de tantas narrativas locais, reais e imaginárias. O olhar estrangeiro daqueles que descobriram uma pequena parte do universo amazônico, procura compreender a realidade do tempo presente, que abriga tantas evidências de culturas passadas. O tempo é um fluir de imagens na memória.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagens: Carla Gibertoni Carneiro, Cristina Demartini, Silvio Luiz Cordeiro, Wagner Souza e Silva.

Vestígio

Durante as gravações em abril no Teso dos Bichos (Cachoeira do Arari, Ilha do Marajó, Pará), encontramos este fragmento cerâmico, a representar uma cabeça de urubu.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Wagner Souza e Silva.

A Grande Ilha

Dias depois de pisar pela primeira vez no Marajó, sobrevoamos a Grande Ilha. Na imagem, vê-se parte do arquipélago, à frente da cidade de Belém, de onde decolamos. Neste tipo de gravação, retira-se a porta lateral da aeronave e, por isso, a experiência é amplificada!

No dia, o sobrevôo foi distinto de gravações aéreas anteriores que fiz, em paisagens urbanas: partindo de Belém, em breve o helicóptero deixou a cidade para alcançar a Baia do Marajó, revelando ao olhar águas sem fim, até avistarmos o território marajoara. Se, da superfície, a paisagem insular impressiona pela vastidão de sua planície, do alto, ela se abre, surpreendentemente no “inverno”, como um gigantesco mosaico de feições: as águas que banham o arquipélago penetram o Marajó adiante, mostrando muitos sinais, então despercebidos por quem caminha na planície da Grande Ilha: antigos e novos caminhos de gente, trilhas de animais, poços, canais e depressões, tudo alagado.

Entre os lugares elevados, percebe-se os aterros artificiais, habitados há muito tempo atrás, por exemplo do Teso dos Bichos, ponto de chegada deste sobrevôo.

Do alto, ao ver uma parte admirável da grandeza do Delta Amazônico, um pensamento surge para mim: de cima, a visão daquela paisagem se desdobra em infinitas imagens, até aterrissar próxima aos objetos que a conformam no tempo; antigos fragmentos de culturas passadas que lá embaixo deixaram tantas marcas, muitas ainda por (re)descobrir; testemunhos físicos que constituem essa grande e potente paisagem humanizada, parte inseparável da Natureza e Ser do lugar.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagens: Wagner Souza e Silva.

Tempo

Como nos conta Edithe Pereira (arqueóloga do Museu Paraense Emílio Goeldi), em suas palavras: “Monte Alegre sempre foi conhecida, em termos arqueológicos, pelas pinturas rupestres em um conjunto de serras localizado a cerca de 40 km a oeste da sede municipal. A curiosidade em conhecer essas pinturas remonta ao século XVIII, quando um visitante anônimo e/ou um jesuíta deixou pintado no sítio da Serra da Lua o ano de sua visita — 1764 — e as iniciais I.H.S.” [Excerto da obra A Arte Rupestre de Monte Alegre, de Edithe Pereira]. Tais pinturas podem ser vistas dentro do Parque Estadual de Monte Alegre (Pará) que abriga importantes sítios arqueológicos, testemunhos de antigas culturas que habitaram a região, milênios atrás. Na fotografia, realizada na Serra da Lua, o jogo de imagens como confronto de temporalidades, pelo olhar daquele que hoje admira estas antigas pinturas, a indagar significados e gestos das pessoas que imprimiram na pedra tais imagens.

Texto e Imagem: Silvio Luiz Cordeiro.

Os limites da fotografia

Parada obrigatória de qualquer fotógrafo em Belém do Pará, o mercado público Ver-o-Peso desafia a tradição documental da fotografia. Se por um lado há uma riqueza de personagens, cores e texturas, enfim, uma fonte inesgotável para a produção de cenas, por outro, a representação fiel do ambiente se torna impossível por meio de imagens, dada a profusão de sons, cheiros e vibração que o mercado traz. Erguido em 1901 para atender à importância comercial da cidade na época, o Ver-o-Peso tornou-se símbolo cultural do Brasil, e hoje é considerado a maior feira livre da América Latina. Ali, fotografar deixa de ser a construção de imagens, tornando-se mais uma mera desculpa para nos perdermos em corredores repletos de tudo que é coisa e de memoráveis surpresas.

Texto e Imagem: Wagner Souza e Silva.

Na casa de Idaliana

A nossa chegada à Óbidos, esta pequena cidade do estado do Pará, foi especial. Lá vimos a velha arquitetura que remete à colonização portuguesa, com exemplares mais preservados que em outras cidades paraenses. E conhecemos Dona Idaliana, uma senhora que há anos estuda a história da sua região e as diversas culturas que aí convivem. Ela tem um especial interesse pelos grupos quilombolas e a pela divulgação dos seus saberes. Recebeu-nos na sua casa e, de uma forma incansável e generosa, procurou-nos apresentar todo o conhecimento que vem construindo a história da região. Sua liderança é notável, além do seu nome ser unanimidade quando o assunto é a história local, sua casa é um ponto de encontro para deliciosas rodas de conversas e “contação de causos”.

Texto: Carla Gibertoni Carneiro. Imagem: Cristina Demartini.

Câmera

Na imagem, eu e Luiz Bargmann, amigo de tantas viagens e documentários. Convidei ele para integrar a nossa equipe na segunda viagem ao Pará, em setembro e outubro de 2013. Enquanto equilibramos o estabilizador da câmera, conversamos sobre a nossa movimentação para gravar o trabalho dos artesãos ceramistas no espaço da oficina de Marivaldo, em Icoaraci.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagens: Wagner Souza e Silva, Cristina Demartini.

Outra paisagem

Na imagem, com ajuda de Cris e Carla (quem segura o guarda-chuva) eu ajusto a câmera para gravar antes que uma tempestade desabe sobre nós (veja o céu!). Estamos parados no meio de um caminho que leva a um sítio arqueológico nas terras altas próximas de Santarém. À esquerda, vê-se uma plantação de soja. À direita, um aterro artificial (mound) com artefatos cerâmicos. Ao fundo, o que restou de selva naquele lugar.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Equipe.

Conversa com Mário

Em Óbidos, na acolhedora casa de Idaliana (sentada à esquerda), ouvimos Mário contar de sua vivência na imensidão das terras e águas amazônicas. Observador atento daquela Natureza, ele nos relata o transformar da paisagem, a partir de sua experiência de vida como habitante do Baixo Amazonas. Entre os fatos que para ele resultam de ações humanas no tempo, Mário nos chama a atenção para o fenômeno que denomina por “terra caída”: o rio, a cada nova cheia, derruba o barranco das margens, transportando a terra que assim caiu para outros lugares. Assim, ano após ano, as referências geográficas se alteram: novas entradas são abertas pelas águas, antigos igarapés encontram-se hoje assoreados, lagos se ampliam, enquanto outros diminuem. Em seu sítio no Lago João Braz, certa vez, numa ocorrência de “terra caída”, encontraram na margem uma bela estatueta cerâmica antropomorfa, peça exposta na Associação Cultural Obidense (ACOB).

Este artefato singular, acredita Mário, pode ter vindo de muito longe, transportado pelo rio Amazonas, até se fixar em suas terras. Muito tempo depois, o fluxo das águas revelaram a estatueta. Nela vemos um colar com pingente representando um muiraquitã.

Testemunho físico de uma sociedade já desaparecida, a estatueta ali descoberta abriga uma memória que vai além de seu contexto cultural e alcança a transformação contemporânea da paisagem do lugar.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagens: Cristina Demartini, Silvio Luiz Cordeiro, Wagner Souza e Silva.

Coleção da família Canto

Na imagem, eu e Carla conversamos com Paulo Canto em Santarém: a sua casa abriga uma pequena coleção própria de artefatos cerâmicos e líticos encontrados no sítio da família. Os objetos estão expostos na sala de sua casa na cidade, num pequeno móvel envidraçado. Assim como sua família, outras pela Amazônia também formaram suas coleções, muitas delas ainda anônimas. Até hoje, qualquer reforma ou nova construção que se realize em certas áreas centrais da cidade de Santarém, por exemplo, ao se escavar o solo para construir os alicerces de uma casa ou reparar tubulações, é bem possível que se encontre vestígios daqueles que habitaram uma grande aldeia no passado.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Cristina Demartini.

Como uma pequena ilha

Em abril, “inverno” na Ilha do Marajó, a tempestade iminente se anunciava quando estávamos diante do chamado Teso dos Bichos. Decidi gravar imagens do lugar a partir do próprio barco, armei rapidamente o tripé na água e liguei a câmera. Foram poucos segundos de gravação em vídeo antes da chuva despencar sobre nós. Wagner então registrou o instante com um smartphone. O Teso dos Bichos é uma estrutura artificial, construída pela antiga cultura que deixou ali muitos vestígios de sua presença, como restos cerâmicos variados, inclusive de urnas funerárias (que estão entre os mais conhecidos artefatos arqueológicos da Amazônia). Vemos hoje o quanto a dinâmica do tempo e as diversas intervenções humanas — por exemplo das primeiras escavações arqueológicas e da criação de gado, que ali sobe, pisoteando a superfície — erodiram este lugar, outrora habitado muitos séculos atrás. No “verão” marajoara, as águas baixam. Mas no “inverno”, o Teso dos Bichos fica assim, como uma pequena ilha visível na imensa planície inundada do Marajó.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Wagner Souza e Silva.

Oleiro

Em Icoaraci (distrito de Belém do Pará), há várias oficinas e lojas que vendem as cerâmicas ali produzidas. Algumas delas incorporam referências arqueológicas. A imagem mostra o mestre Carlos, oleiro que também trabalha na oficina da família do mestre Raimundo Cardoso, quem primeiro teve acesso ao acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi para assim reproduzir peças arqueológicas de certas culturas do passado da Amazônia, como a marajoara e a tapajônica, popularmente conhecidas desde então.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Wagner Souza e Silva.

Pelos sítios de Santarém

Pela manhã, encontramos Marcio Amaral, morador de Santarém e conhecedor profundo da arqueologia da região, para conhecermos alguns sítios arqueológicos… Desde nossa saída do centro de Santarém, Marcio nos foi relatando e evidenciando na paisagem as formas de ocupação das populações indígenas em um passado remoto — a ocupação da várzea, do planalto, a formação das terras pretas, a construção de um sistema de captação de água, a elaboração de uma cerâmica sofisticada. Havia conversado com ele por horas no dia anterior quando pude reconhecer seu fascínio e seu grande conhecimento. Seu interesse pela arqueologia surgiu pela curiosidade aguçada, o contato direto e intenso com os vestígios arqueológicos; essa vontade o motivou a buscar informações construídas pela arqueologia — como autodidata buscou conhecimento na bibliografia sobre a região e trabalhou com diferentes equipes de arqueólogos que são referência para a arqueologia amazônica, como Anna Roosevelt, por exemplo. Hoje ele integra a turma do curso de Arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) e certamente continuará contribuindo muito para a arqueologia da região, de uma forma apaixonada e comprometida.

Texto e Imagem: Carla Gibertoni Carneiro.

Tucupi no tacacá

Depois de um dia cheio durante a produção de nossa equipe em Belém, nada melhor que tomar um tacacá ao ar livre para repor as energias ao entardecer! Procuramos a banca de Maria do Carmo, em frente ao Colégio Marista, na avenida Nª. Sª. de Nazaré, provavelmente o melhor tacacá de rua da cidade: além do sabor, o grande movimento de gente ali confirma. Na mão, uma síntese especialíssima de cultura alimentar paraense, ingrediente indígena, receita cabocla, comida mestiça: numa pequena cuia de cabaça, Maria primeiro despeja o caldo amarelado do tucupi (líquido extraído da mandioca brava e então fervido); acrescenta um punhado de folhas cozidas de jambu (erva amazônica singular, de efeito vibrante na boca, sobretudo as flores chegarem ao caldo junto com as folhas!);  quatro ou cinco camarões secos e salgados; uma ou duas conchas de goma (feita a partir do polvilho da mandioca, para engrossar o caldo); e, por fim, conforme o paladar do freguês, como é o meu caso, ela acrescenta uma generosa colherada de caldo de tucupi apimentado! Bom apetite!!!

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Cristina Demartini.

A terceira margem do rio

Na proa, eu e a terceira margem do rio: a fronteira do olhar na paisagem da Ilha do Marajó, o caminho pelas águas, rumo aos remanescentes de culturas que habitaram lugares distantes. As imagens produzidas durante as gravações do documentário revelam no tempo presente um pouco mais sobre esse acervo cultural do passado humano na Amazônia.

Texto: Silvio Luiz Cordeiro. Imagem: Wagner Souza e Silva.